Fim

         Semana cinquenta e dois, isto é, a última do ano. Última linha, últimas palavras, ponto final. Antes de recomeçar quero me permitir fazer uma breve releitura desta página que há bons 360 e alguns dias atrás estava completamente branca e que agora narra essa etapa de nossas vidas. 
         De modo geral, muitas coisas aconteceram. Que tsunami foi esse? Que passou por aqui, tirou tantas coisas fora do lugar, escondeu sentimentos, soterrou pessoas, fez desaparecer outras, outras correram, algumas por conta própria partiram. Como pedras preciosas algumas ficaram, me ajudaram a juntar o que restou, me confortaram e fizeram sorrir nos momentos de tensão. Muito choro, alguma lamentação, muita coragem. Por sorte, merecimento, destino, não sei... Surgiram pessoas que me ajudaram a reconstruir, reorganizar as coisas em mim, na minha vida. Assim, pude começar do zero, rever conceitos, mudar pensamentos, atitudes, pedir perdão. 
             Mas, no meio de toda essa confusão, um sentimento surgiu, se fortaleceu, se fez presente. Assim, me agarrei com as duas mãos em outras duas mãos trazidas pelo destino para me acompanhar nesta reconstrução. Dificuldades foram superadas, momentos inesquecíveis e incríveis, que jamais pensaria viver. 
               Apesar de tudo mencionado acima, posso dizer que muitas coisas boas aconteceram, sonhos foram realizados, objetivos alcançados e de improviso todas as metas acabaram cumpridas. Prédio reerguido, novas pessoas, velhos amigos, preciosidades que encontrei e espero levar comigo até onde for para ser. Consegui soltar o freio, liberar o sinal verde, gargalhar por madrugadas e saber driblar os empecilhos. Por fim, agradeço por ter sobrevivido a tudo o que se passou e ainda mais por ter aprendido a lição e vivido todas as maravilhas destinadas a mim. 

"Agradeço a todos que estiveram comigo, de alguma forma, principalmente e sem dúvidas aos meus pais, amigos. Agradeço todas as coisas boas que vivi, principalmente a mais importante delas..."


A vida é como um quebra cabeças, porque sempre falta a última peça. (Evandro Santo)

Ano novo

Venha ver o que te espera
Deixe esse passado pelos caminhos
Entre nas novas vielas
Que a vida te propor e deixe que o moinho
Faça ventos que soprem
Toda negatividade
Todo mal que vem
E que a gravidade
Deixe cair sobre você
As pétalas de sorrisos que brotarão
E assim vista-se de branco glacê
Celebre a renovação
Dos dias, da vida
E que as lágrimas lavem a tua alma
Trazendo amor sem medidas
Para que compartilhes com toda vivalma
Que por ti cruzares
Entre esquinas e becos
Que seja como os mares
Infinito, mas que posso guardar no peito,
Na lembrança, como fotografia, no bolso do meu jaleco.


Natal

             Independente de crença religiosa, o natal é uma data marcante para a maioria das pessoas, pois serve para reunir as famílias, unir as pessoas e para refletir sobre o que realmente é o amor de verdade, aquele que passa de pai pra filho, de avô para neto. Mais do que isso, o natal consegue trazer aqueles que estão longe, para perto de nós e mostrar que não há nada melhor do que estar entre familiares e amigos. Assim, sentada aqui na escrivania me ponho a escrever sobre esta data de festa, de celebração, de renovação. Me ponho a escrever por testemunhar como é boa esta sensação de festejar todas as coisas boas que possuímos e principalmente com aquela que é a mais importante. Portanto, nesse natal dê um abraço, um beijo, faça um telefonema, envie um cartão para todas as pessoas importantes, ou seja, compartilhe o amor e cultive sempre nos corações daquelas pessoas importantes ou que estejam precisando de afeto.  

Um Feliz Natal a todos !



Sozinho

"Sabe quando você senta em frente ao espelho, olha para si e pensa em tudo o que já fez pelo próximo? E ainda se dá o trabalho de contar quantos te retribuíram, agradeceram ou sequer consideraram você... Se dá o trabalho de chorar quando vê que nesses anos todos, somando todas as pessoas notáveis que já passaram por sua vida, apenas uma ou duas lembraram de você. "

Essa  situação é triste, acontece seguidamente comigo, acontece justo naquela sexta-feira de noite bonita, em que todos aqueles quem ajudei, aconselhei ou lembrei, esqueceram de mim. Mas aí, como manda o sábio e todo poderoso, o que devemos fazer sempre e acima de tudo é erguer a cabeça e pensar que tudo o que foi feito, não volta. E se fiz é porque não exigia nada em troca. 

Se você está lendo esse texto, nessa noite bonita, lembre-se daquele seu conhecido, amigo, irmão, que te estendeu a mão e considere esse alguém, você terá uma boa companhia e com certeza receberá um belo sorriso em troca. 

Vazio

     

           Agora nem cabelo, nem sobrancelha, nem pele me preocupam. A depilação com cera é uma das dores mais insignificantes, nesse momento. Esmaltes, batons, sapatos, jóias já não fazem a minha cabeça. Doença? Não. É mal de amor. Não diria que não é mais ter motivos para sorrir, mas digo que é falta de diversão, de empolgação ao ver o sinal vermelho nos finais de mês, seguido de um pequeno grande alívio. É vontade de conflitar, de ter alguém que me ouça sempre que eu quiser e precisar falar. É falta de ter alguém que me ligue na madrugada, mesmo para mandar um beijo ou para desabafar. É falta de sentir falta dos amigos. É vontade de ter alguém por perto, mesmo que esse alguém seja cego, surdo, mudo. É a praga que se depositou no meu corpo quando te disse adeus. É mais que infecção é câncer e não sai. Não dói. Corrói. E me faz ver que a vida não pode existir sem que haja alguém que atenda os desejos, proteja dos medos e que abrace sempre que eu me sentir vazio, como agora. 



Confissões

        O frio na barriga é algo que ainda acontece. Eu não imaginava que seria assim, muito menos depois de um tempo, quanto tempo. Sempre é como se fosse a primeira vez. É como se o artista nunca subira no palco, como se a platéia não fosse aplaudir, como se aquela sensação positiva nunca fora sentida... 
E é exatamente assim que me sinto quando te vejo e deparo tantas vezes com um sorriso, em raras situações me espanto com a ausência dele. E bate de novo aquele frio na barriga, aquela vontade de te acolher e jurar que tudo vai ficar bem. Aquela pontinha de dúvida do tipo: "será que eu fiz alguma coisa...", sempre bate na porta, mas é só não deixar ela entrar. 
           Que gostoso encontrar a tua mão, trazer junto a minha ou a sentir tocando os cabelos. Desesperador é não a encontrar e nos cabelos apenas sentir o vento frio que bate. Virar para o lado e procurar aquele olhar sincero e fixo, é algo que realmente faz um momento qualquer ser especial. Difícil é procurar e não encontrar as janelas abertas, inexistência de brilho, de sol. As flores que recebo e às vezes finjo que não vejo, são só sinônimo de que eu as vi, adorei e quero de novo. Os bilhetes que você acha que não li estão na gaveta da mesinha, fora do envelope, sinal de que leio sempre que preciso sorrir ou de um abraço teu. 
         O mais importante de tudo e que jamais quero que esqueça é que considero uma das melhores sensações o momento da reconciliação, afinal se existem brigas, é para que hajam mudanças e ajustes que nos tornem cada vez mais fortes. Dizem que as mulheres mandam, que dominaram o mundo e que superaram os homens, em muitos aspectos. Mas, talvez estejam esquecendo de confessar que, apesar de tudo, é impossível não ficar sorrindo por dentro ao ouvir um elogio ou não sentir aquela sensação de perda, quando as nossas mãos se desencontram. 



Onze do onze

       
           Sol de fevereiro e lá vamos nós. Os trinta e dois, de codinome onze, no ano onze. E talvez essa combinação não seja um mero acaso, afinal algumas coisas mudaram por aqui... Descobrimos que os homônimos, Danielas, Vinícius e Vanessas, podem ser denominados isômeros. Ganhamos quatro elétrons, mas não podemos dizer que deixamos quatro pelo caminho, afinal a intensidade de sentimentos é algo que ainda se mantém. A sociologia saiu de campo, entrou a filosofia. E agora, apesar de ser sem fórmulas e sem calculadora, a soma continua perfeita e intacta, afinal a ordem dos fatores não altera o produto. E por increça que parível isso tem dado muito certo, ainda que em épocas de primavera os olhinhos andam pintados e a atenção ás vezes dá um passeio lá na mecânica. 
            Apesar dessas mudanças todas, é inegável que a persistência continua intacta, assim como o bom humor, as amizades e superações. Se a ligação era apenas metálica, posso dizer que se duplicou e virou do tipo sigma - pi. Se antes tínhamos a capacidade de converter unidades, hoje, devido a esse mix de qualidades e defeitos, somos capazes de converter lágrimas em sorrisos e mostramos que somos nota dez em união. E, embora, em alguns momentos, mostramos a instabilidade das partículas gasosas, basta uma gota de agente precipitante e tudo volta a ser sólido novamente.
               Camões ficou para trás, a leitura da vez é Brás Cubas e essa história de entender de que trata o texto ainda é um dilema para muitos. A loucura e a lucidez ainda oscilam e brigam entre si, disputando quem domina nossos corpos sedentos por férias, sombra e "água" fresca. Talvez essa água não seja tão pura e tenha misturas que nos façam enxergar um cubo de oito lados ou se acostumar com as especiarias que servem no bar. Ah, já ia me esquecendo de lhes dizer que os elétrons mencionados acima têm nomes e podemos chamá-los de Laiana, Hariel, Pietro e Amanda. Elétrons de cargas positivas e que só agregaram e contribuíram para essa variedade de emoções. Quantas emoções! Física têm sido uma delas... 
              O cupido acertou alguns coraçõezinhos por aqui, deixou os lábios mais sorridentes e o clima mais descontraído possível. E ao som do violão, no passo de ballet, nos versos, nos gols, na excelência, nas boas notas, na criatividade, é que nos inspiramos a cada dia e não deixamos de ser esse grupo forte, que reúne elementos únicos e pessoas simplesmente incríveis. E é assim, com essa energia toda que vamos seguindo esse caminho, de pedras, flores, espinhos, alegrias, tristezas e vitórias, que na soma final é só cortar e pôr as qualidades em evidência, que o resultado será sucesso. E se me permitem plagiar uma parte do texto anterior, não posso deixar de repetir que somos campeões e é com a trilha de "We are the champions" que encerramos essa batalha. Para aqueles que estão na corda bamba é só rezar para o pai nosso que estais no céu, pedir para livrar nos da crueldade do conselho, que os professores sejam bonzinhos conosco, para que seja feita a nossa vontade de passar de ano, assim como a de ter férias. Que dois mil e doze venha livre de todo o mal, que o chico não nos abandone... Amém!

"Eles riem de nós por sermos loucos, enquanto nós rimos deles por serem todos iguais."

Foto do arquivo pessoal

      

Querido

Quero e quando quero, quero
Porque o querer é algo que quer queira quer não
É algo forte e se quero, quero sim

Quero sempre, amanhã
Não importa quando, só sei querer
Quero sem saber direito como é
Quero mas não apenas por querer

Se estou querendo quer dizer alguma coisa
E se quero alguma coisa
Só há uma possibilidade de querer
Porque se eu realmente quero assim, sem fim

Quero uma mais que todas as coisas
Quero aqui e lá
Quero agora, não demora
Quero você.




Recordação

             Meu nome é Carla Cavalheiro, mas todo mundo me chama de Cacau. Ontem sentada no "puff" parei para pensar na vida, nos tempos passados, na infância, nos amigos. Lembrei da Sabrine. Na verdade eu nunca esqueci. Nos conhecemos nos tempos da escola, foi meio que por acaso ou espontâneo. Eu jogava no time de basquete da escola, muito mal por sinal e um dia em um dos meus golpes animalescos, derrubei uma garota. Ela sofreu uma fratura exposta, foi para o hospital, quase morri de vergonha, visitava ela todos os dias, arquei com as despesas e assim, ficamos amigas.  Nossos gostos eram praticamente os mesmos, forma física totalmente contraria e personalidades que se encaixavam quase que perfeitamente. Quando uma fazia birra a outra sabia bem contornar a situação. Discordávamos em algumas coisas, mas nada que resultasse em alguma briga séria. 
             Fazíamos parte de uma quarteto, Eu, Sabrine, Lara e Mariah. Eu particularmente me identificava muito com Sabrine, aprendi a confiar em alguém, talvez, pela primeira vez. Aqueles segredinhos toscos de adolescente eu dividia com ela. Na época eu usava aparelho e óculos, as outras sempre zuavam com a minha cara, me chamavam de nerd e etc. Nada disso passava de ciúmes, não sei de que.. Afinal, como disse era tudo tão tosco... Eu enxergava o que se passava, mas não tentava e nem podia tentar me defender, porque a história poderia se espalhar e eu ficaria como a "doida". Deixei assim.
              Lembro, como se fosse hoje, do dia em que fomos comemorar o meu aniversário no boliche, as palavras de Sabrine foram como uma passagem a outro plano, aquele abraço foi um agrado a minha alma e eu senti que já não precisava de mais nada. Eu confiava nela, eu gostava, gosto demais. Mas, quando voltei ao mundo, me deparei com um olhar satânico de Lara, que vinha diretamente para a nossa direção, sem desvios. Ali me toquei que era preciso realmente tomar muito cuidado. No outro dia, conversei com Sabrine, ela disse que eram coisas da minha cabeça... - como eu suspeitava que aconteceria.
                Um tempo depois, acho que um mês depois, comecei a sentir que a minha amiga já não era mais a mesma, o oi mal saía da boca, o rosto já não tinha aquela forma de sempre, o seu comportamento foi me deixando em dúvida sobre os seus sentimentos, as coisas começavam a desmoronar. Lara passava por mim com aquele olhar de quem venceu o jogo, Mariah se deixava influenciar. As coisas foram se perdendo do meu controle, eu já não sabia o que dizer. Tentei uma, duas, dez, talvez mil conversas com a Sassa, mas nada fazia mudar aquela arrogância, aquele ar cínico e dissimulado. Sofri, foram meses e meses. Parecia que o tempo não passava, as coisas não mudavam... Então, resolvi erguer a cabeça e continuar a vida, pois não se pode lamentar uma vida inteira por algo que talvez não vale a pena. 
                    Já estávamos em uma época bem próxima da formatura, provas finais e a excursão para Punta del Este se aproximava. Passaram-se os meses e fomos. A viagem foi ótima, marquei de dividir o quarto com a Fabi e a Loala. Elas eram muito divertidas ! 
                    Nevava muito, fomos esquiar. Porém, antes de sair do hotel, vi Sassa chorando e perguntei o que era, ela me tratou com estupidez. Aquilo abriu a ferida que havia em mim, mas não me fez desistir do passeio. A noite chegou e eu me virei de todas as maneiras na cama, nada de sono! Nada me tirava da cabeça aquele desprezo da Sabrine em relação a mim. 
                    No dia seguinte saí para dar uma volta, percebi que havia visto todos, menos Sassa. Liguei pro hotel e ninguém tinha notícias, Lara havia arrumado um novo namorado e Mariah pouco se preocupou. Saí a procurar, perguntei, perguntei... O guarda da pista de patinação me informou que ela havia passado por lá pela manhã, mas que fazia um tempo que havia ido embora. Andei, andei... E lembrei que ela gostava de observar o nascer do sol. Fui esquiando procurá-la, até que de longe vi aquele corpo no chão. Era ela casaco roxo, respiração ofegante, caída sobre a neve. Ela havia desmaiado, estava com febre alta e com as extremidades roxas. Eu não podia chorar, devia ser forte, mas não consegui. Tirei todos os meus casacos, pus nela, tentei fazer respiração boca a boca, tentei reanimá-la. Mas, a cada gesto meu, ela ia dando menos sinal de vida. Tentei tirá-la dali, tentei ligar para alguém mas meu celular estava sem bateria.. Chorei tudo o que pude, lembrei de todas as coisas lindas que passamos, dos tempos que jamais irão voltar. 
                  Eu não consegui salvá-la, não consegui dizer a ela que eu a amava muito. Apenas pedi desculpas por não ter conseguido salvar a pessoa, que mesmo depois de ter cumprido a sua missão, me ensinou a perdoar e que a morte é só uma fase, infelizmente permanente, mas que não define a extinção da vida. Nada se perdeu, apenas se transformou em lembranças.
        

Leoa

        Ela me olha com olhos de leoa. Como quem fita a presa fixamente e sente o estômago roncar e se contorcer a espera de comida. Parece que terminar comigo seria pouco ou talvez apenas um terço da sua vitória. Em sonhos, eu desço quadrada na garganta, chego no estômago e sou muito mal recebida, ela preferia carregar um elefante nas costas a ter de me aguentar, me ver sorrir, me ver renascer e reconstruir o estremecido. Justamente porque não caí é que ela custaria a me digerir e a se dar por satisfeita.
            Eu não devolvo na mesma moeda, finjo que não vejo, respiro, sorrio e emudeço. Penso, repenso e reflito sobre a pena que sinto dessas atitudes vazias e desertas, no corpo de quem tem talento suficiente para superar as próprias expectativas, que não são poucas. 
           Mas que ironia, pois num mundo em que se tem tanto a fazer, ainda há quem gasta tempo tomando conta do alheio, com armas de fogo a postos para destruir os felizes. Porém, se existe uma coisa chamada justiça, posso dizer que em breve tudo pode vir a mudar, outra vez, assim vamos indo e enfrentado essa louca viagem que é a vida.


  "Aos que me atiram pedra, obrigado. Pois, é com elas que construirei o castelo." (citação de autor desconhecido)
                                                                                   

Bagagem

             As malas estão prontas para a viagem, levo só o básico, o íntimo e o essencial. Levo o primeiro beijo, a primeira carta, o primeiro amor, o melhor amigo e alguns retratos da infância. No bolsinho estão alguns pequenos sonhos que ainda quero realizar, e logo ali quando abrir a bolsa verás que carrego uma Ana Júlia, uma Mallu e uma Daniella. Estão na superfície para que todas as vezes que eu abrir a bolsa terei a oportunidade de ver. Na mala maior carrego os meus acessórios essenciais e indispensáveis lembranças, sonhos já realizados, conquistas, um Luis e uma Sandra. 
              A necessaire traz alguns encantos, versos, beijos, o brilho e um Vinícius básico para dar um up. Enquanto na mochila carrego os colegas queridos, o conhecimento, as lições e as experiências. Vou apé, passo a passo e devagar, mas sigo sempre, vivendo, aprendendo e errando. Mas, para percorrer essa estrada tão longa que é a vida, você deve estar se perguntando se não é muita bagagem... Te respondo: não, não é. Ainda não citei, mas só para lembrar que levo um Érico, uma Andrea e um Léo, para todas as horas. 
              Para não esquecer de nada, fiz uma lista de coisas que preciso levar, verifiquei, verifiquei e vejo que ali estão um Luiz Eduardo, uma Nicole, uma Júlia e até um Ismael. E você deve estar se perguntando, e as tristezas, as mágoas e os problemas,  será que vou deixar de lado? Não. Vou levá-los na mala principal para me lembrar sempre das coisas que aprendi até aqui.

Liberarte 2011 - Primeiro Lugar na categoria poema

Abandono

Dois
Eu e tu transversais
Hoje, sempre, agora e depois
Entre beijos sobrenaturais
Quatro
Paredes sombrias
Na cama, no quarto
Pontas de cigarro, sala vazia
Seis
Coisas para fazer
Antes do adeus
Dias e noites, viver ou morrer?
Oito
Minutos para a partida
Televisão, filme, biscoito
Três, dois, um... Porta batida.


Liberarte 2011 - Segundo Lugar categoria poema

Bifurcação sexual

Filha do mundo sou
A beijar teus pés, ó Incerteza
Que reina sobre mim
Me pondo em dúvida sobre o que sou
Se rosa ou se azul
Enquanto de preto me visto
A escutar o Meio Termo
Que me deixa confusa
Entre amar a mãe ou o pai da minhas crias,
Entre esse pai gigante enfrentar
Ou a perpétua máscara me sujeitar

Nada sei

            Ainda não é fim de ano, mas as minhas regras dizem que devemos dizer algo bonito sempre que tivermos motivos. E eu tenho milhões de motivos para dizer o quanto aprendi nesses últimos meses. Aprendi a valorizar as pessoas, a deixar algumas coisas de lado, brigar com o medo sempre que ele quiser me impedir de algo. Aprendi que a vida é feita também de conflitos, que vêm e passam, deixando algo de bom. Agora consigo me olhar no espelho, talvez porque só agora eu consegui encarar a realidade, a idade. 
           Aprendi a dizer todas as coisas e assim, a utilizar toda a sutileza que o mundo me permite. Consegui assimilar também que nem sempre o sorriso é quem predomina, e sim a esperança. Finalmente me deixei admitir coisas que eu ocultei durante uma vida, me permiti errar, aprendi a não me arrepender e a aceitar certas coisas imutáveis. E cada uma dessas novas experiências, me fazem sentir como uma criança que dá os primeiros passos, que aprende a falar a primeira sílaba... Cada coisa que aprendi só me faz acreditar firmemente na frase de Sócrates, pois por mais que eu tenha aprendido eu ainda posso dizer que só sei que nada sei.

Presságio

        No calor da hora eu disse sim e me joguei sem pensar em consequência qualquer. E foi assim que tudo começou ou talvez foi assim que eu acho que começou. Afinal, eu não lembro como, nem quando, só sei que tudo mudou. Não houve juras de amor, não houve abraço, mas houve sorriso. O teu sorriso me acolheu de um jeito, que me tirou completamente a vontade de soltar. Mas que engraçado, aconteceu comigo, aquilo que eu jurei para mim que jamais aconteceria. Parece mentira, mas aquela vida inconstante, sem destino, de idas e vindas já não faz mais sentido. Aquilo que ontem era tudo, hoje é nada. O teu seio é meu berço e a rua só um lugar de visitação.
         Não sei se é paixão, não sei o que é e nem quero saber. Para que não haja o risco de me arrepender, para que eu possa aproveitar essa vibração. Ultrapassa o desejo, o sexo. É tão natural te olhar e conseguir dizer muitas coisas sem sequer abrir a boca, conseguir compreender os teus desejos sem a necessidade de que emita som algum. Me sinto criança a pisar pela primeira vez na areia a cada vez que estamos juntos. Sinto que saí da casca, quando sem querer disse "sim" pra mim.

Lucidez

            Hoje acordei meio assim, sei lá. Pronta pra guerra, inspirada e com vontade de cantar para os quatro cantos do mundo, até que não haja afinação e som na minha voz. A boca está pronta para o beijo, enquanto o corpo quer sair e saltar feito elétron de uma camada para outra. O humor em uma instabilidade tremenda, feito vulcão, pronto para a próxima erupção. Áquilo que ontem era solidão, hoje se resume em um bom vinho, salto, batom vermelho... Uma companhia ou duas, talvez. Plena quarta, mas uma boa pista cai muito bem e perfeitamente. E nada de bebedeira, amanhã é quinta feira e além disso, hoje quero estar lúcida, de cara limpa e sem armas. Quero seduzir honestamente, matar aos poucos apenas com uma dança ou de cansaço. Vou dispensar a discussão entre o meu eu e o teu, obedecer meus instintos sem titubear. Afinal, não sei quando terei outra oportunidade de acordar assim, fazer, acontecer e amanhã lembrar. 

Basta

           Cansei de tudo, de todos, de todas as aparências, de todas as pragas e de tanta estupidez. Chega! Chega dessa angústia que só me agonia e que me faz enxergar o escuro. Chega de nós, de cordas que me amarram, que cerram uma personalidade construída durante tempos. Chega de maldizer, chega de intrigas e de coisas que me arrastam e me fazem rastejar por uma simples companhia. Chega... De viver, de sofrer, de chorar e de se desculpar por erros       que não pertencem somente a mim. 

Fundamental


           

               Antigamente eu amava brincar de amar, amava a possibilidade de amar. Hoje percebo que sempre amei, mesmo quando pensava estar brincando. E hoje vejo que amo admitir que amar é realmente algo que faz parte de mim e que havia uma grande possibilidade de eu ainda não aprendido que para haver vida é preciso amar.

V.M.

Não basta ser perfeito
Tem que ter aquele gosto acentuado
Assim, daquele jeito

É único, nada acanhado
Tem química, tem cheiro
De chuva, corpo molhado

Tem que ser assim
E não tem jeito
É tão sem fim, que para mim
É bom assim, tão imperfeito

Salivar esse sabor
Me inspira a sempre dizer
Te amo.




Espinho

              E como tenho aprendido nesses últimos dias... Aliás nesse último ano. Agora as coisas são claras, tão transparentes quanto a água. A pré-visão do tempo para esse ano garantia dias chuvosos e os pré- requisitos para dois mil e onze eram o acontecimento de coisas muito boas, boas e outras nem tanto. Todas àquelas que se encaixam no bloco das "nem tanto" me vem a calhar justo agora. Durante o soprar dos ventos frios, o voar das folhas secas e assim se faz o cenário que compõe essa cena de tempo nublado.  
               Todos os meus "eus" agora se reúnem em ciranda em torno de mim, para me fazer a companhia que me falta. E o sorriso que era espontâneo agora é escudo contra negatividades e males. O olhar que um dia fora vivo nada mais é que um olhar de dúvida e pura desconfiança. O que se passa em mim? Talvez uma pitada de fogo que faz o sangue entrar em plena ebulição ou quem sabe é só um tempo de metamorfose, até que tudo volte ao normal. 
               Na verdade entender o que está se passando não é tão difícil assim. O que me intriga, na verdade, é vontade de entender de onde vem essa força? Essa força que me faz acordar todos os dias, abrir a janela e ter a capacidade de acreditar na existência de dias melhores. Mas, como diria um velho sábio, a estrada é de chão batido, coberta de verde, flores, amores e espinhos. E para que haja sobrevivência, basta fazer uso da flexibilidade, afinal basta inclinar a coluna, levar a mão até o pé e retirá-lo. Um espinho a menos e a caminhada continua...

Chão batido, flores, longo caminho, amores, espinho.


Avesso

      Fechei os olhos e abri uma porta dentro de mim que talvez eu nunca havia aberto antes. Na entrada havia um degrau. Pisei e caí. O degrau era falso, havia um grande precipício. Cheguei no mais profundo do meu íntimo e como em uma sala de cinema, sentei e vi passar no telão todos os meus sonhos, as minhas vontades e os meus sentimentos. Quanta coisa guardada, quantas palavras que não disse, quantos momentos não vividos. Sonhos. Muitos sonhos. Verdades e certezas. A certeza de que preciso entrar em pleno êxtase. Uma grande vontade de explodir de emoção como um dynamite. E a necessidade de algo que não sei o que é, nem onde está, mas que me tire fora de mim, que me vire do avesso, nem que seja por um instante.  

O amor é gago

             Desde muito nova trabalho como recepcionista em uma empresa de exportações. O fato é que para exercer a minha função é necessário que a pessoa seja desinibida e bastante comunicativa. Eu nunca fui assim, até o dia em que passei a me desconhecer. Talvez o que eu tinha era medo ou vergonha de me expor.
               Para chegar no meu trabalho eu pego o metrô e caminho cerca de sete minutos. Certo dia, estava saindo de casa, para ir trabalhar, quando parou um carro prata do meu lado... O vidro baixou, dentro havia um homem desconhecido, que para a minha surpresa me ofereceu carona. Ele disse que me conhecia do "café" que eu sempre frequento durante o intervalo e que acabara de se mudar para o meu bairro. Encabulada e completamente chocada, resolvi aceitar a gentileza. Um homem bastante agradável, com bom gosto musical, nem bonito, nem feio... Digamos que mediano! E o principal: ga-ga-guinho. 
                 O trabalho dele era perto do meu, na mesma quadra, eu diria. Meu namorado estava viajando à trabalho, mas acho que ele não veria problemas em eu pegar uma carona com o vizinho. 
                  Na sexta-feira daquela mesma semana, o Bru-no me convidou para ir no café com ele depois do expediente, aceitei, pois precisava me distrair. Bebemos um café, ele se apresentou de modo decente. (Bruno, 31 anos, formado em arquitetura e estudante de design de interiores.) Eu me apresentei e desenvolvi um papo de modo que eu me espantei comigo mesma. A conversa fluiu, tudo no tempo certo e eu ganhei um amigo.
                   Na semana seguinte, o Rafa estava para chegar de viagem, mas eu não sabia ao certo que dia. O Bruno me convidou para jantar e eu disse só aceitaria caso eu escolhesse o restaurante. Levei ele para experimentar uma comida japonesa, que eu adoro. Quando chegamos, recebi uma mensagem do Rafa, dizendo que estava na minha casa. Liguei para ele e disse que estava no Tóquio (o restaurante). O Bruno estava meio estranho desde que chegamos no local, logo pensei que ele pudesse estar com algum problema. Porém, quem estava com sérios problemas era eu, já que precisava arrumar uma namorada pra ele, antes do Rafa chegar. 
                   Havia uma garçonete bastante simpática, ofereci uma grana à ela para que se passasse por namorada de Bruno. O Rafa chegou e no mesmo instante a garota sentou-se ao lado de Bruno. 
                   -   Quem é esse? - Bruno
                   -  Um amigo meu. - Respondi
                   -  Sou o Bru-bru-no! E essa é a minha na-na-morada.
                  -   Hellen? Não sabia que estava namorando!
                  -    Você conhece ela, Rafael ?
                  -  Sim, nós nos conhecemos e muito - Respondeu a garota
                  -   Como assim? - Interroguei surpresa
                  -  Eu e a Hellen namoramos, durante dois anos
                  -   Essa é a Hellen?! (Quase morri do coração nesse momento, a garota era linda, dona de um corpão que até eu era capaz de virar o pescoço, caso a visse na praia.)
                  - Sim, prazer! Hellen.. Por que tanto espanto, querida?
                  - Nenhum.. Quer dizer... Todo. Eu jamais imaginava que você fosse a ex-namorada do Rafa.
                  -  Por que?
                  - Porque você parece magra, totalmente diferente do que o Rafa havia descrito.
                  -  Como assim? - disse a garota quase saltando no meu pescoço. - Eu não quero saber de nenhuma explicação.. quer saber, já fui humilhada o bastante!
                  -  Es- es- pera Hellen .. - disse Bruno
                  - Marília! Olha o que você disse para a garota! - disse Rafa - Eu vou atrás dela!
         Que confusão! Eu que sempre fui tão tímida, disse uma coisa daquelas.. Não pude nem cumprimentar meu namorado, que foi correr atrás da ex e estraguei o meu jantar com o Bruno. Comecei a chorar, no ato. O meu amigo me abraçou e me levou para casa. Conversamos e em instantes me acalmei. Ele se esforçou para vencer a gagueira e me fez rir demais. A noite passou e nem percebemos. E, antes dele ir embora, preguntei o motivo dele estar estranho quando chegamos no restaurante e ele confessou que estava apaixonado por mim e não sabia como dizer isso, pois sabia que eu era apaixonada pelo Rafa. No mesmo minuto, recebi uma mensagem no celular: "Imperdoável o que fizeste, está tudo acabado entre nós!". Não derramei nenhuma lágrima, afinal eu já havia acostumado viver sem o Rafael, que ultimamente só ligava para o trabalho.. O Bruno havia me feito feliz em uma semana, uma felicidade que eu não havia vivido durante o tempo que estava namorando.
           Imediatamente desci as escadas correndo, abri a porta e fui ao encontro de Bruno. Sem falar nada, dei o beijo mais longo e alucinante da minha vida. O tempo fechou, começou a chover, mas para mim não importava. Na verdade, o mundo poderia acabar naquele instante e ainda assim, eu estaria feliz, por ter encontrado em apenas uma semana o amor da minha vida.

Aos que dizem que o amor é cego, estão enganados, pois o amor é gago! 
                   

                      
                   

Fragmentos

            No mudo das minhas palavras soltas e por aqui deixadas, me perco a pensar na alucinante situação em que me encontro. A confiança se perdera por algum lugar, não sei onde, nem com quem está. Enquanto isso a vida vai passando, o vazio me abraça e minha sombra muda deixa de me perseguir. 
         Completamente sozinha sigo o rumo desenhado pelo Supremo. Talvez as minhas luzes guias estejam comigo, talvez estou em um pesadelo e amanhã vou acordar e abrir a janela para a entrada de um lindo raio de luz. Quem sabe me resta esperar o mundo girar, para pôr todas as coisas no lugar, para aconchegar o sentimento no lugar certo. 
          Passageiro assim como as nuvens, será esse momento. Viera para me pôr diante de mim e dos prós e contras da minha errante existência. Na imperfeição me perco, mergulho e reconheço fragmentos de mim. Aqueles cacos de vidro que preciso colar, outra vez. 

Pretérito imperfeito

             Me pergunto eu se um dia não vou me arrepender. É, arrepender, por um dia não ter bebido até cair, por não ter feito mais loucuras, por não ter me deixado levar pela vida. Ás vezes, paro para pensar, se eu não vou vir a me arrepender e ter aquela crise dos trinta por não ter vivido mais amores, por não ter testado outras profissões, por não ter roubado aquele chiclete de bar, que estava dando sopa. 
             Ser tão careta torna-se difícil, cansativo, mas bastante gratificante. Porém, um tanto sem graça, sem grandiosas histórias para contar, sem lembranças desastrosas, sem grandes lições. Talvez eu já esteja arrependida por ter amadurecido assim, tão de pressa, se eu podia deixar isso para os quarenta. Seria tão mais gostoso, se eu tivesse comprado todas as revistinhas de moda e beleza que os meus treze anos pediam à minha alma, seria tão mais doce se eu tivesse me entupido de porcarias (balinhas fini, biscoitos recheados e doritos), também eu não usaria o meu sagrado trinta e seis. Estaria na calça quarenta!
             Mesmo assim até que foi gostoso. Quem nunca colocou meias no peito para fingir ter seios? Quem nunca se sujou com terra? Quem nunca caiu da escada? Quem nunca recusou um beijo, por vergonha de dizer que nunca beijou ninguém? Saudade... Muita saudade desse tempo. E, pensando bem, eu confesso que fui careta e certinha demais, mas bato no peito para dizer, que de nada me arrependo. 
              Há muito o que viver, muito do que se arrepender, muito a fazer. E já que falta bastante para os trinta, que tal dar um chute na responsabilidade de vez em quando? Que tal, brincar de esconder com o tempo? 
               Diversas aventuras passaram, mas quem foi que disse que acabou ? É tempo de recomeçar!


Ópio

Como pode? É, como pode, ser assim tão forte. E ainda há quem diga que o amor anda escasso, isso e aquilo. Tudo mentira, intriga de uma oposição que cultiva amor em si, mas que não achara a quem destinar. Concordo que ele está meio esquecido ou até comum demais. Talvez, se não me engano, as pessoas estão o confundindo com algo similar. Tudo o que parece ser bonito está sendo denominado amor. 
Com as mãos no vidro, nesse dia chuvoso, me pergunto eu... Como pode ? É algo que toma conta, sobe, desce, desfila dentro de mim e não me permite esquecer de nenhum detalhe, de nenhum momento, de nenhum traço naquele rosto. Criança sou outra vez a rir de tudo, brincar de esconder com a saudade que me faz vibrar a cada sexta-feira para ver o sorriso, para viver a magia. 
Quiçá tudo não passa de um sonho, quiçá. Ou será que estou a fazer como os meus companheiros desta tripulação, cuja denominação é mundo, confundindo flor com amor? 
Ora, esse amanhecer que brota aqui dentro a cada minuto, me renova de modo a me fazer querer viver mais e mais para ter a prova real, 
se é realmente amor ou mil vezes intensidade. Não sei ao certo, o que é, nem como é. Posso apenas dizer que é completamente maluco e informal, tão fora da antiga realidade esse ópio do bem que eu denomino felicidade.  



Insanidade Lúcida

              Intensidade é a palavra que descreve aquela noite. Sozinha, saí de casa, fui para a casa noturna mais próxima. Eu queria diversão, sair da rotina, buscar algo que eu nunca havia encontrado aqui no meu interior. Não, eu não buscava amor, mas uma sensação nova, queria uma noite para recordar sempre que a minha alma pedisse socorro. Logo que cheguei, tratei de dançar e buscar novas pessoas. Eu disse novas pessoas e não amigos. Apenas pessoas que pudessem fazer daquela noite inesquecível, afinal eu queria uma noite única, isto é, em um lugar inédito, com pessoas inéditas.
               A música estava ótima, as pessoas com quem me identifiquei eram agradáveis, mas nenhuma delas me fez tão feliz quanto dois conhecidos meus de anos, que encontrei. O Absinto e a Tequila. Eles me acompanharam durante a festa inteira e me fizeram sentir um orgasmo tão bom, que nenhum homem me fizera sentir antes. Talvez, nenhum ser seja capaz de me fazer sentir a alegria que eu senti naquela noite. Foi a melhor de todas!
Foto do arquivo pessoal
                Tais lembranças estão tão frescas na minha memória, que mesmo se eu tivesse me arrependido eu simplesmente faria tudo outra vez. Afinal, a vida é uma só, fugir da rotina e sentir-se vivo é o que há.

Mil novecentos e tal

            Anos de bagagem, de história, de luz, de dom, de sabedoria, de vitória. Dezessete mil experiências, tantos passos dados até aqui, tantas portas já abertas e tantas por abrir. Amiga, tia, sobrinha, amada, amante, filha, ser humano, assim sou desde aquele dezenove, desde aquele junho, desde aquele mil novecentos e tanto. 
             Dezessete vezes eu, mil penteados, tantas histórias, inúmeros amigos, milhões de pessoas passaram por aqui, ao longo desta caminhada, que hoje julgo ser longa, mas que nem começou. Inicia aqui. Agora é tudo novo, de novo. E mais uma vez, folha nova, novo parágrafo... Lá vou eu a escrever meus orgasmos, vivenciar novas situações, bater língua por novos lugares, deixar o meu abraço apertado em outros corpos, deixar os meus conselhos, escrever meus erros e acertos. Erguer a taça no pódio, também, ou retornar para casa acuada, jamais de cabeça baixa. 
           Dezessete mil sorrisos espalhados, milhões de dúvidas e a certeza de que muitos desafios terei, porém, ainda que a força venha a falhar, as esperanças estarão sempre aqui para me lembrar de mostrar os dentes e bater na porta da felicidade. 
              Dezessete mil motivos para amar, alguns fatos que não me permitem desistir de persistir e encarar mais vinte, trinta ou quarenta anos a frente, na busca de realizações e amores não platônicos. 

"O melhor de fazer aniversário é olhar para trás e estar ciente de que cada ano que passa a experiência vem, mais uma vez, ao nosso encontro."
                                                                                                             (Deise Carvalho)

19 de Junho. 

(Obrigado por todos os votos de parabéns.)

UAU !

            Mais de trinta visualizações em um dia. O que tenho a dizer sobre isso? Muito Obrigado, leitores. Afinal, quem constrói o orgasmo  somos nós, pois sem vocês o blog não existiria. 

O melhor texto do mês, disparado, com mais de trinta visualizações em um dia fica com o texto "Se".


Meia nove

          Meu nome é Julie, sou chefe de departamento, ou melhor, ex-chefe de departamento. Há uma semana fui demitida, ou seja, sou uma desempregada qualquer. Sou solteira e tenho um filho, o Eduardo.
            Certo dia, naquele dia, meu último dia de trabalho, recebi um e-mail maluco de uma amiga me convidando para ir a uma reunião de mulheres.. (Você deve estar se perguntando o que há de maluco nisso e vai ficar se perguntando por mais um tempinho). O fato é que eu estava abalada, afinal sem emprego, o destino se torna incerto, portanto não estava no clima para qualquer tipo de evento ou comemoração. Porém essa minha amiga insistiu muito e passou aqui em casa para me apanhar, ou seja, acabei indo. O local era completamente estranho e não combinava com uma simples reunião de mulheres. Apavorada, perguntei para a minha amiga, a Dani, se havia algum tipo de brincadeira ou algo que eu não sabia.. Ela disse que não, que estava tudo sobre controle. Dessa forma, confiei nela e fui em frente.
               Aparentemente parecia uma residência comum, com direito a cachorro e tudo mais. Mas uma coisa me intrigava, o som alto que partia lá de dentro. A Dani não havia me dito que seria algo mais descontraído.. Trajando o meu terninho de sempre e de cabelo repartido no meio, entrei. Haviam muitas mulheres naquele local, todas animadas, dançando, curtindo. Fui apresentada a dona da casa, a Lia, e ela me pareceu bem simpática. 
                Nos primeiros trinta minutos estava achando tudo um saco, pra ser bem sincera, já que eu não estava nada animada. Mas, depois de uma dose seca de whisky a noite começou a esquentar, literalmente. Afinal, foi nesse instante que eu tirei o blazer e me joguei na pista. Dancei, dancei muito. A essa altura a Dani havia sumido de meu lado, tive que me enturmar com umas outras mulheres da casa. Todas muito receptivas. Ocorria tudo da maneira mais maluca possível, eu nem acreditava que estava ali e passei a acreditar menos ainda quando olhei para o lado e haviam duas mulheres envolvidas por um beijo intenso. Foi nesse instante que decidi parar de beber e observar as outras mulheres ao redor, então, percebi que elas dançavam em duplas, "cantavam" umas as outras.. Em fim, só aí me dei por conta de que eu estava em uma cilada. A reunião de mulheres, na verdade, era uma festa Lésbica. 
                 Apavorada, sai pelos quatro cantos daquela casa imunda para procurar a Dani, que havia sumido. Que nojo sentia, enquanto aquelas mulheres passavam a mão em mim, e mais nojo me dava, quando pensava o quão tonta fui em não ter percebido tudo desde o início. Alguns minutos de caminhada e lá estava a Dani, conversando com a Lia. Me pus nervosa nesse instante, afinal não queria demonstrar o meu nojo para a dona da casa e por outro lado, pensava que eu devia fazer aquilo, afinal o que meu filho iria pensar se soubesse que eu frequentei um lugar desses. Fiz milhões de sinais, enviei um torpedo.. Mas nada da Dani vir ao meu encontro. 
                 De repente o meu telefone toca, era o Dudu dizendo estar com febre. Eu precisava sair correndo daquele lugar, mas não tinha como, afinal estava de carona e não tinha nenhum número de táxi. Nervosa, resolvi beber uma dose de tequila.. E puf! Não lembro de mais nada. 
                 Só sei o que me contaram e o que restou de mim no dia seguinte. Segundo a Dani, comecei a dançar como uma doida, chamei a Lia em um canto e disse que estava com muito nojo daquele lugar, mas que estava carente. Já a Lia me contou, no dia seguinte, que eu a beijei, em seguida fomos para o quarto. Já segundo a minha memória acordei ao lado dela, abraçada nela, na cama dela. OMG ! O meu nojo foi convertido em outras coisas e o meu filho entrou em convulsão e foi socorrido pela vizinha. 
                 Que pesadelo! Essas lembranças sujas, não saem de mim. Essa culpa sobrevoa sobre a minha cabeça, cada vez que olho para os olhinhos do Dudu, sinto tremenda vergonha. E um vazio, uma vontade de chorar, acompanhada de uma louca vontade de repetir tudo outra vez! Na rua do juízo, número 69.

Espelho

Foi neles que encontrei aquela paz que eu precisava para poder ouvir a minha própria voz, foi nos teus olhos que pude ver o meu reflexo, a minha verdadeira forma. E, talvez, foi no teu sorriso que encontrei os verdadeiros motivos para sorrir. 

Obrigado.


Inexplicável

          Há um tempo atrás, eu teria um milhão de coisas para dizer sobre o amor. Diria que é algo vazio, caso estivesse desiludida. Diria que é o maior dos sentimentos, o supremo, caso eu estivesse pensando amar alguém. Ano passado, aliás, eu disse que "o amor é como uma rosa, precisa de cuidados, dentre esses, o carinho, a dedicação; devemos regá-la todos os dias com a mais pura água, e tudo o que há de bom em nós." E realmente a coisa funciona mais ou menos assim, mas o que me surpreende é ter dito o que não sabia, ou talvez o que ainda não sei direito. Afinal, me considero "calouro" na arte de amar.
           Este ano já não sei o que dizer sobre o amor, já que é tão bom, tão melhor do que eu apenas pensava. O amor é um universo paralelo, onde embarcamos em uma viagem de intensidade, é como mergulhar no mais puro dos oceanos, é estar perto mesmo há milhões de quilômetros. Amar é atravessar o deserto de todas as solidões, é estar forte e capaz de encarar qualquer desafio, sem ter medo, pois amar é um desafio. Amar é perdoar não importando a situação, é ser companheiro, é ser amante. Amar é renascer a cada dia, ter o reflexo das boas vibrações no sorriso e no olhar do outro, é  transbordar de satisfação, é enxergar um mundo inscrito na Terra.
              A lupa do amor me faz enxergar o quanto eu era vazia, quando pensava que o amor existia para todos os outros seres, menos para mim. E a prisão que eu me autosubmetia consistia no medo de estar aberta, de estar pronta para habitar um universo que não era o meu, o universo das pessoas felizes. Mas a coragem me veio a tempo para mostrar que amar é inexplicavelmente inexplicável.





Para todos os apaixonados, um Feliz dia dos Namorados. 

Se



Se mudar tudo é a saída,
Eu quero tudo de novo
Se acertar sempre é monótono,
Eu quero seguir errando
Se o difícil é bom,
Eu quero me submeter ao amor
Se a vida é uma só,
Não importa, eu quero replay
Se você já não me faz bem,
Algum tipo de balada me fará
Se existe apenas um caminho,
Eu quero todos os possíveis
Se lutar por o que me convém é símbolo de morte,
Que me executem
Se para ter tudo o quero tem um custo,
Eu pago
Se for para tudo acabar agora,
Não quero, pois não é o fim
Se ter disciplina é ser normal,
Sou louca, pois meu interior é uma desordem
Mas, se acaba com "foram felizes para sempre"
Desculpe, pois essa história não é a minha
Afinal, o "pra sempre" é tão volátil quanto o álcool.

Timidez


         Que olhos são esses? Que me cercam, vêm e vão simultaneamente com os meus passos firmes. Olhos de quem deseja ou olhos de quem quer revanche? A boca silencia enquanto as janelas se abrem para mim e fixas ficam a me admirar enquanto me sujo comendo um cachorro quente. O corpo paralisa, o frio bate, a mão gela, o suor pinga... Você se põe nervoso enquanto os teus pensamentos buscam os meus, enquanto a tua pele arrepia ao me ver cantar e todos os dias ali, na platéia, você está. 
         Minha timidez te cerca, pergunta teu nome, te chama e sorri, mas você não liga, finge ou não vê. Por que?  Armadilha do destino ou uma fantasia da minha cabeça? Na verdade eu não sei. O fato é que não posso esconder o que quero, o que meus instintos sopram em meus ouvidos, o que meu corpo pede enquanto durmo e sonho. Não posso mentir para o meu orgulho que sisma em te odiar, enquando a minha boca teima em te querer. Amanhã vou tomar uma atitude, virar esse jogo e demonstrar para o mundo, talvez, que aqui dentro de mim, dois corpos podem sim ocupar o mesmo espaço. 
       

Grão de areia

               Tão pequena sou eu neste mundo, onde admiro as mãos produtivas, os braços fortes e as mentes brilhantes. Sobrevivo aqui, enquanto lá criam equipamentos, criam muitos filhos com o pouco que têm, criam coragem para lutar, mantém perpétuo o sorriso no rosto. 
                 Não sei ao certo a minha verdadeira dimensão, mas sinto que sou assim quase microscópica diante da multidão que se vai, em busca de vitórias, de crescimento, de superação. Enquanto eu permaneço aqui, escrevendo versinho por versinho de uma canção. Sábia, de certo modo, ainda sei que sou, mas nada comparado aos meus heróis, afinal diante do supremo e dos meus admirados, sou eu só mais uma a fazer dos versos minhas cobaias, da poesia a minha vida, e assim sigo, até encontrar outra saída. 

Nada de nós

          Joguei pela janela as pétalas das rosas que me deste, com elas voaram as lembranças, os sentimentos, o medo. Fechei a cortina e me pus no canto. Encolhida ali fiquei a pensar e repensar sobre todas as coisas incríveis que me aconteceram nos últimos meses. Sorri sozinha diante de todos os sonhos realizados, de todas as longas conversas durante noites inteiras, diante de tudo o que se referia a "nós" dentro de mim.
            Não chorei, porque agora já seria inútil, uma hipocrisia convertida em perda de tempo. Então, simplesmente liguei o "Beatles", que dizia mais ou menos assim: let it be. Permaneci ali, fumei uma carteira de um cigarro qualquer e fiquei a pensar e repensar sobre mim e tudo o que me compõe. Música, amigos, pai, mãe e nada além disso, já que o amor voou com as pétalas, já que você virou fumaça assim como os cigarros, assim como você virou as cinzas que restaram das cartas. O nada de nós que restou em mim se converte em vazio, em rascunhos do caminho que pretendo tomar e dos momentos que pretendo viver assim, a sós.

Quebra-cabeça

        Que peças o destino prega. É um "tira e bota", no quebra-cabeça da vida. Pecinhas que se encaixam automaticamente, pecinhas que se escondem para não completar a imagem, para o jogo não acabar. E assim, conforme a peça, embarcamos em um doce sonho ou em um triste pesadelo. 
          O fato é que a imagem vai se completando, com o passar do tempo. Se clara ou escura só as nossas ações podem decidir, enquanto a vida trata de nos ceder peças conforme o merecimento e retirar conforme a nossa ingratidão. Oportunidades quando não aproveitadas podem lançar aquela pedra no caminho e o destino pode se cansar de tudo e "game over". 
            Mas, se soubermos sorrir e encarar os dias de peito aberto, o destino nos trará as peças certas. E completar a imagem é apenas o fim de uma etapa do jogo, afinal existem as demais fases a serem vencidas. Cada imagem para revelar um período, uma vitória, uma conquista, um desafio. Fases de horror e pesadelo podem surgir, mas lembre-se: tais imagens no final do jogo podem não passar de simples fotografias. 
             Serão retratos que servirão para recordar a boas horas, fazer jus a tudo o que aprendemos durante o quebra-cabeça, retratos de nós. Retratos que revelam o quanto crescemos. 

Wallentine


Lá vai você, sorrindo, levando o meu bem mais precioso
Vieste para retirá-lo daqui, levá-lo para onde eu custe a achar
Talvez porque pretende vingar-se, levá-lo para o seu esconderijo
De onde vieste para mostrar as nuvens e de lá me jogar

Que queda
Poderia ter tido mínimo de compaixão
De cabeça baixa retorno ao meu habitat
Onde desaprendo paixão

Retomo a prática que tenho em sorrir
Enquanto o meu interior debulha-se em lágrimas de sangue
Enquanto meu externo finge amor em mim existir
Eu preparo as minhas armas contra o matador

O amor
Não mais inimigo, agora indiferente
Aquele que eu cogitei ser eterno
Me trai, me leva ao inferno.

P.S. Eu te amo

           O aroma era forte, seco e quase nada adocicado. Assim, na medida certa. O sorriso inteiramente branco, a pele morena e os olhos de cor indefinida. Alto, de semblante sério e pé quarenta e quatro. Como eu sei? Nesta época eu trabalhava de vendedora em uma loja de calçados. E ele era nosso cliente, o mais bonito, mais simpático e o mais fiel. Passava semanalmente na loja para dar uma olhada nos lançamentos. E eu sempre fazia questão de atendê-lo. 
            Certo dia, ele passou na loja à procura de um sapato feminino, pediu minha opinião. Surpresa, já que ele era aparentemente solteiro, perguntei quem ele desejava presentear. Ele respondeu que daria o sapato para uma garota, mas não especificou qual o tipo de relação havia entre eles. Disse a ele que os sapatos de cor vermelha estavam com uma boa saída e que de todos ali, era o que eu mais gostava. De maneira objetiva respondeu: então, é esse!
             Fiquei surpresa. Afinal, confesso, aquele homem era atraente, tinha a estrutura perfeita e sonho de qualquer mulher. Ele dirigiu-se ao caixa e conversou durante certo tempo com a atendente. Pensei, logo, que ele poderia estar interessado nela. 
              Nesse dia eu tinha um trabalho da universidade para fazer, portanto planejava chegar em casa, tomar um banho e me jogar nos livros. Porém, quando cheguei em casa, havia um cesto com flores em cima da mesinha. Perguntei para a minha mãe quem as enviou e ela disse que era anônima. Havia um convite dentro do cesto, era realmente anônimo e me convidava para jantar. Comecei a rir no ato, pedi para a minha mãe fazer o que quisesse com as flores, pois eu não iria neste jantar, afinal, eu achava que era algo inventado pelo Jack, o meu ex. Minha mãe disse que brigaria comigo caso eu não fosse, mesmo assim, não fui. 
                 No dia seguinte parti para o trabalho, tudo normal. Fui para casa e minha mãe disse que havia chegado uma caixa destinada a mim, de novo anônima. Abri a caixa era um colar, lindo e aparentemente valioso, junto havia um convite para jantar no mesmo local. De novo, não fui. E assim, todos os dias daquela semana haviam presentes anônimos e convites para jantar. No sétimo dia resolvi ir, descobrir quem me mandava tais objetos e devolvê-los. 
                   Coloquei o meu melhor vestido, me produzi inteira e fui. O restaurante era fino. Lá fui orientada a esperar em uma mesa que estava reservada e nela havia uma caixa preta. Sentei, esperei durante uns trinta minutos, quando fui surpreendida por aquele aroma delicioso que me atraia. Era ele. Vestia uma roupa digna da ocasião, estava vestindo um terno preto, inesquecível. 
                   Jantamos, bebemos um vinho importado, conversamos. E por fim, ele me entregou a caixa preta, nela havia o sapato vermelho. Logo, questionei o que ele realmente queria comigo, decidido respondeu que me observava sempre que ia comprar lá na loja e que estava apaixonado por mim. Eu ri. Sério, para calar o meu riso, ele jurou provar seus sentimentos. Àquela noite foi longa, maravilhosa e bem aproveitada. Fomos para o apartamento dele. Confesso que nunca havia sido tão feliz, quanto fui com ele. Afinal, de maneira sem igual ele me desejava. 
                    Alguns meses depois começamos a namorar, fomos muito felizes durante o namoro e talvez, por esse motivo, hoje, às vésperas do nosso casamento estou aqui, ansiosa, a sentir aquele aroma impregnado na camisa branca, do nosso primeiro encontro. 

 Cedo, para reforçar o inacreditável, recebi flores e no bilhete, anônimo dizia: 

       P.S. EU TE AMO ! 

Primeiro beijo

       
         Enquanto você me devorava com os olhos, naquela pista, ao som de uma música qualquer, eu dançava para você, sorrindo, com ar de provocação. E na realidade eu estava te provocando propositalmente. Eu te chamava com o olhar e com o movimento do corpo te convidava para entrar na minha vida, te conduzia até mim em pensamentos. 
        Aquela noite fora a mais longa da minha triste existência. Afinal, quando notei o seu olhar em minha direção esqueci do frio que sentia, das pessoas ao meu redor, da música que tocava.. A grande verdade é que eu me senti, pela primeira vez, poderosa. Sim, poderosa. Pois, como eu sempre fora tímida e introvertida, nunca havia arriscado nada, absolutamente nada com nenhum homem. 
        E, naquele dia, a iniciativa parecia partir de mim, do meu corpo. Aquela insegurança que me acompanhava durante anos, eu mandei embora, no momento em que me dirigi até você, sorrindo. Dançamos juntos, eu te seduzia por livre e espontânea vontade e eu me sentindo leve, arrisquei um beijo. Um beijo bem aceito, eu diria. devo ter feito tudo errado, mas naquele momento, para mim, nada era errado. Afinal, aquela era a noite em que estava completando dezoito anos de existência e o primeiro contato considerável com um homem. 
         Ficamos juntos durante a noite inteira, perdi minhas amigas de vista, elas nem acreditariam. Ter as perdido de vista foi a melhor coisa que me aconteceu, pois na hora de ir embora, você me ofereceu carona e eu aceitei. Nos beijamos durante uns dez minutos dentro do carro, interrompemos quando acordei do sonho. Me dei por conta de que estava beijando um estranho, em seu carro, sem nenhum conhecido por perto. Me dei por conta que eu nunca havia feito aquilo na vida e me perguntei como eu havia conseguido. A insegurança pediu para entrar, soprou em meus ouvidos, mas não a ouvi. Afinal, eu me sentia incrível e super poderosa, após ter descoberto que nunca é tarde para dar o primeiro passo. 

Freedom


        Se eu pudesse desejar algo sem limitações, eu desejaria ser livre. É livre. Ter a liberdade de poder programar que quero fazer no próximo final de semana, por qual o canto do meu próprio mundo eu vou querer estar e qual pessoa do meu agrado eu vou querer receber aqui. Adoraria, caso eu tivesse a possibilidade de ao menos pensar me libertar de mim, de certos pensamentos, das antigas ideias. 
         Sou grata por tudo o que tenho e procuro sempre valorizar as coisas. Mas infelizmente não tenho fôlego para alcançar a perfeição, que corre veloz, um pouco a minha frente. Quanto as lágrimas derramadas de modo sutil, escorreram em mim, apenas para expressar o meu desejo por liberdade. Por desejar decidir onde quero curtir o meu próprio silêncio, em qual parte do meu quarto quero sentar para observar o nada, ou em qual momento eu desejo dizer boa noite. 
         E a vida vai passando, e esse desejo oscila entre oculto e inexistente, mas que de fato está sempre aqui, batendo na minha porta querendo entrar. Não atendo por acreditar que o dia de abrir essa porta vai chegar. Afinal eu só queria ser livre, esquecer de fazer a guerra e optar pelo dia em que quero fazer amor. 

  

Luis


      Luz da minha vida
      Fiel herói de infância
      Com carinho,
      Destrói minhas angústias
      Me acolhe feito cipó como ninguém

       Um, que vale por mil
       Único por ser meu, só meu
       Embora, pai de todos
       Apesar de seu sangue estar apenas em três
      
       Iluminado pela divina luz
       Mãos de ferro para semear amor em mim
       E assim, braço forte para regar o meu ser
       Conhecimento, razão e valor
       Desaguam em meu corpo

       Sábio por natureza
       Ó meu rei, tua coroa brilha
       Fez de mim princesa
       Da flor mais linda rainha
      
        Teus filhos, no plural
        Exclamam orgulho por ti

        Alegria estar contigo
        Meu eterno amor, amigo
        O único a quem juro a minha vida

         Deise Carvalho para Luis Carvalho






    


    
      
    

Ne me quitte pas


    Minha vida sempre fora boa, sem grandes emoções, mas com muitos sonhos. Sempre me dediquei ao trabalho, aos estudos, a carreira. Defendo as diferenças, me adapto às circunstâncias. Porém, dessa vez, confesso, está difícil. 
        Certo dia, aliás, naquele dia, fui apresentada ao meu novo chefe. Um homem aparentemente frio, robusto e      bastante inseguro. Todos reclamavam dele, falavam pela suas costas e eu, somente eu, o tratava diferente. Eu batia de frente com ele, enfrentava ele mesmo sabendo que corria o risco de perder o emprego. Nós brigávamos, discutíamos, mas sempre nos respeitamos. 
          Ele demonstrava arrogância no olhar, fazia questão de manter estampado na testa o seu "ar" de superioridade e eu não suportava aquilo. Mas, apesar disso, eu sempre o admirei muito. Ele despertava a minha atenção, me fazia ter sonhos loucos todas as noites, me estimulava a me imaginar na orgia em pleno elevador, me fazia feliz, apesar de não saber. 
           Eu sabia que não era amor, não era paixão, não era nada, além de uma atração boba e meio adolescente, talvez. Mas era inevitável disfarçar e ele começou a perceber. Trocávamos olhares durante as reuniões, saíamos para beber, trocávamos uns beijos nas horas vagas. Nada além disso. Ele era solteiro e eu também e não tínhamos nada, além da companhia um do outro, nos momentos de vazio. 
            Era ótimo. Ríamos durante horas, brigávamos durante uns minutos e logo fazíamos as pazes. Mas as nossas personalidades nunca deixaram de ser opostas, contrárias e revoltas uma com a outra. Era domingo, combinamos de nos encontrar, sugeri um "pub". Fomos até lá, ouvimos boa música, conversamos e ele me falou sobre uma viagem que estava planejando fazer com uma mulher que ele havia conhecido. Pela primeira vez e imediatamente demonstrei ciúmes, dei um show de ironias. E claro, brigamos. Ele estava certo de que iria fazer essa viagem, me chamou de infantil, disse que o que aconteceu entre nós foi uma boa amizade. 
             O mundo caiu, mas ele estava certo. Nunca estabelecemos um compromisso, um acordo ou qualquer coisa que determinasse uma união, um namoro. Saí do local abatida, perdi o rumo, emagreci alguns quilos em uma semana. No dia da viagem, fui até o aeroporto. Me despedi, chorei e jurei nunca mais correr atrás dele, caso ele atravessasse aquela linha de embarque. Ele foi. 
             Já faz um mês que estamos distantes e tanta saudade sinto, daquele cara sensível e frio. Portanto, hoje resolvi tentar comunicação, há cinco minutos enviei um e-mail escrito "ne me quitte pas"... São quatro palavras, que dizem o que sinto, o que quero, o que preciso. As quatro palavras que ressaltam a minha última tentativa, para não desapontar as mulheres, já que vivemos tentando.