Conto de falhas

        Eu inventei tantas histórias para evitar falar de mim, feito um palhaço que pinta o rosto para ganhar seus dias.     E quantas vezes eu contei amores que não eram meus, só para aliviar o excesso daquilo que já não cabe no peito. Foram muitas. Cada uma de um jeito diferente, com uma nova roupagem, todas sinceras. Mas, quero dizer que sim, escrevi bastante sobre o que vivi, relatei cada fase. Relatei cada pétala das rosas que um dia me enfeitaram a mesinha e que agora foram lançadas ao vento. Relatei cada retrato, cada canção. Cada poema escrito, cada sopro nas feridas, cada beijo adocicado, tudo - absolutamente tudo foi registrado - e como disse: até mesmo o que não vivi. E o que me enche os olhos é simplesmente o fato de ter passado mensagens, encantado e até ter feito parte de alguns capítulos de vidas, que assim como as minhas histórias, não são minhas.


"Para não dizer que não falei das flores"

Foto do arquivo pessoal.
             Da janela observei o jardim, a beleza das flores. Elas transparecem uma delicadeza, um ar de fragilidade, de quem deseja cuidado. A gente têm o dever de regá-las e regamos. Mas, nunca paramos para observá-las, acompanhar de fato o seu crescimento. As cores as enfeitam e elas por si enfeitam e perfumam os ambientes, as rimas, os romances e até mesmo trazem uma certa leveza à morte. Quanta qualidade carrega uma flor. Seus espinhos, substâncias alucinógenas ou tóxicas são suas defesas. E como é confortável para nós julgarmos a elas pelas características "negativas" que carregam. O fato é que a gente não valoriza, a gente passa pelo jardim e nem enxerga. O ser humano não é capaz de perceber que apesar de transparecer fragilidade, as flores são mulheres fortes que sobrevivem às mais terríveis tempestades e ainda assim, conseguem se manter vivas, lindas e prontas para enfeitar o que for. Pena que os homens não às enxergam assim. Apesar da imobilidade, elas estão em todos os lugares, mesmo que algumas mais murchas, outras mais faceiras, jovens. Levam em suas folhas e galhos a alegria de se exibir, de colorir a vida. As flores mais antigas carregam consigo a experiência, aquele pólen mais forte - que encanta qualquer beija-flor que se preze - enquanto as mais mocinhas se exibem fechadas, deixando implícito o seu charme, se aprontando para um dia seduzir os olhos de quem sabe apreciar e preservar suas pétalas. Por fim, eu me arriscaria até a dizer que as flores são importantíssimas, vitais e o que me magoa é que elas possuem o defeito imperdoável de não serem eternas. 

"Jamais pise, arranque ou maltrate uma flor. Ela pode te espetar."


Chocolate amargo

            Me senti triste quando você partiu. Me senti no chão, como pneu quando está vazio. Chorei bastante, emagreci uns quilos. Enfim, foi aquele drama mexicano que todo mundo conhece. Afinal, quem nunca amargurou uma fossa? Quem nunca passou por isso? Lamento em dizer (para os que ainda não passaram), que seja de um modo mais explícito ou de um modo mais discreto, um dia você vai passar por isso. O engraçado foi que, mesmo protagonizando aquele dramalhão todo, eu parei para pensar e olhar ao meu redor tudo o que sobrou, o que ficou, o que eu poderia consertar. Eu sabia que tinha de começar do zero e cheguei à conclusão de que para ver tudo de pé, outra vez, eu deveria me mexer. Naquele exato momento tirei o casaco, peguei a tesoura, passei nos cabelos. Mudei a cor do batom, abri as janelas de casa - arejei as ideias - e refletindo cheguei à conclusão de que a gente não pode ficar se condenando por ter vivido uma situação que não foi legal. Não foi legal? E o que falta para viver algo legal? Arriscar. 
              Sair de casa é bem importante, estar ao lado dos amigos, mas o melhor remédio é enfrentar a situação de frente. Encarar a pessoa que te magoou, olhar nos olhos dela, demonstrar pro mundo como você se sente. Esconder, mentir, se enganar nunca fez bem. Escorada na sacada do meu apartamento pude lembrar de uma velha amiga, que perdera dois filhos dos três que tinha. Baixei a cabeça e pensei: sair de um relacionamento, quebrar uma amizade ou até mesmo a morte de alguém querido, realmente magoa - mas não mata! Nem a perda de um filho é fatal. Tudo é capaz de se regenerar. Somos bilhões e é impossível que não haja um outro alguém para estabelecer uma amizade, um relacionamento ou até mesmo amar independente de qualquer coisa. Quantas pessoas traídas existem, quantas mulheres agredidas... Ninguém morreu. Porque o sofrimento faz parte de nós e em qualquer tipo de relação humana o que nunca deve existir é o sentimento de perda, o que fica é apenas saudade de tudo o que valeu à pena e lições que vão fazer crescer. 
              Depois de pensar em tudo isso, enfrentar, te encarar os olhos. E finalmente me perguntar: o que eu estava fazendo comigo? Autodestruição? Não sei, não me importa. Eu prefiro dizer que eu estava provando um doce - que de fato não era doce - e essa experimentação serve para que eu nunca mais prove esse mesmo doce, aliás isso tudo me estimula a procurar por outros doces e saber valorizar aquele que for de fato o meu predileto - aquele que for feito com ingredientes que vão muito além de "carinho".

Amor e ponto final

E foi exatamente assim, eu sentada diante de uma lareira, com pensamentos, cigarro, vinho. Você chegou sem pedir licença e me pegou a mão. Nem fechou a porta, entrou de pressa - como quem quer salvar uma vida - e no nosso caso eram duas vidas salvas. Sinceramente, eu já havia desistido. Eu já havia comprado passagens para um lugar distante, onde eu pudesse me refugiar, viver uma outra história. Mas, você me agarrou pela cintura e sem nenhuma palavra sorriu. Foi o melhor sorriso que recebi, sem dúvida. Não era o mesmo sorriso de tempos atrás. Era um sorriso mais vivo, transparecia a alegria de me ver, de estar ali. Foram alguns minutos assim, como duas crianças nada afoitas, dois olhares que se reencontraram - se redescobriram! Antes do beijo jogaste um papel na lareira, lembras? Era o teu contrato de casamento. A partir dali te declaravas livre. E aí sim, nos beijamos até a eternidade. O vento batia em nossos cabelos, mas não era um vento capaz de apagar o fogo da lareira, nem aquele que estava em nós. Aquela velha chama reacendeu e quem diria, eu ali reciclando um sentimento antigo. Dizem que quem gosta de velharias é museu,  mas eu diria que para um coração que ama, um amor nunca será velho o bastante para não poder ser recuperado. Ao contrário do que se pensa, o amor quando é verdadeiro se renova a cada dia, somando tudo, fazendo de nós inseparáveis (até mesmo quando separados). Foi exatamente assim que recomeçamos e parece que foi ontem. Mudaste tanto, deixaste a solidez para arriscar comigo uma vida desordenada, a melhor desordem que eu poderia ter. 

Sobrenatural


      Prefiro dizer que se trata de uma meia verdade. Meias mentiras me desagradam, tanto quanto uma mentira inteira, tanto quanto qualquer coisa que venha pela metade. Metade verdade, meio suspense, um pouco de cada para dar sabor a vida. Um sabor novo, sem definição de doce, salgado, levemente amargo. Eu diria que se assemelha a uma frase cheia de vírgulas, semelhante a essas que compõe esse texto. Frases que me dizem tantas coisas que se espalham, que ganham e perdem sentido em fração de segundos. Frases e palavras que compõe a mensagem, que vai se redigindo até o momento em que ocorre uma pausa. Sem ponto a frase termina, sem sentido. E o que resta é decifrar, é ler, pescar o que se quer dizer. O que resta é optar por descruzar os braços e correr enquanto é tempo ou sentar e deixar passar. Não basta saber, deve-se acreditar e procurar responder certas questões para si. Feito linha no tecido, tudo vai se cosendo, se entrelaçando e causando uma série de dúvidas. Dúvidas cruéis, meias frases, meias palavras que se fundem, que se chocam e colidem por serem providas por uma energia que nos doma, de modo sobrenatural

Quem sabe?

         No envelope eu pus todos os versinhos, as carícias, as palavras de amor. No envelope encontram-se antigas razões, frutos colhidos pela doce ilusão e os desejos mais sórdidos. As cartas que não entreguei, o e-mail impresso, que não enviei e toda minha ternura. Anexei ao retrato toda a minha delicadeza que pede para sair daquela caixa preta. As pétalas secas de todas as rosas também estão ali, regadas com cada lágrima derramada. O beijo, o gosto, o amasso e, sobretudo o corpo, eu enterrei em um jardim longe daqui. O coração continua batendo, batendo e só. As canções eu canto só, quando só as paredes podem me ouvir. Eu canto baixinho, afinado. Eu canto para aliviar a alma, para me fazer sorrir e para me recordar de tudo o que havia aqui, antes de ti. Cada passo deixa uma pegada na minha estrada, cada pegada uma marca, um registro. Cada passo me deixa sem certeza, mas me dá uma esperança diferente. Mas, tudo depende do dia,  que se cinzento como hoje - só me traz lembrança tua. E, por falar em ti, já não sei quem és, de onde veio, nem teu nome. Nem teu cheiro conheço mais. A grande verdade é que congelou tudo o que era fogueira, mas, quem sabe um dia talvez eu aqueça, quem sabe eu me renda para o mais perigoso bandido, quem sabe eu me renda de novo - para o amor.

Dualidade constante


       A vida é curta e de uma complexidade incontestável. Podemos até dizer que viver é fácil, mas na prática, não funciona bem assim. Como tudo na vida, teoria e prática se diferem em alguns instantes. O fato é que pintamos e bordamos a vida, são cores, muitas cores que pintam os nossos planos. Traçamos tantas metas, quando jovens. Sonhamos, de repente, com o impossível. Sonhamos. O fato é que gostamos de pintar a vida conforme o nosso sonho, conforme a ilusão. Esquecendo a verdadeira cor que a vida tem, deixando oculto todos os trechos preto e branco que vamos percorrer, porque na imaginação viver é mar de rosa, colorido. A perda é o lado incolor da vida, tão sem graça, impertinente, desagradável. Mas, embora desagradável, não existe alguém que não vai perder alguém importante. Isso mostra o quão não estamos preparados para perder, sofrer. A derrota é o lado negro da vida, é a parte da vida que nem passa perto de nós nos nossos sonhos, mas ela ocorre para todo mundo, em algum momento. A gente nunca sabe quando, mas o fato é que haverão decepções, frustrações, brochadas. E outro fato bem importante é que sim, todos nós vamos ter os momentos de arco íris, de alegria extrema, de plenitude e satisfação. Isso tudo simplesmente porque a vida é uma constante dualidade, é uma cartola que reserva coelhos, incertezas, mudanças ou vitórias. Viver é basicamente acordar todos os dias sem estar preparado para o que vem pela frente, para que possamos aprender a cada dia a chorar ou sorrir, para que possamos ser conscientes de que esta noite qualquer um de nós pode acabar o dia com lágrimas nos olhos e iniciar o dia de amanhã com um lindo sorriso. Viver é estar ciente de que nem sempre se perde, nem sempre se ganha e que o importante é que se aprende a cada dia de vida, o importante é o que deixamos para as próximas gerações.